PIMENTA NOS OLHOS DOS OUTROS…

(*) Cleber Lopez
Vivemos tempos assustadores de radicalização, intolerância, violência e preconceito. A corrupção sistêmica nos rouba além do emprego, da saúde, da educação e da segurança o chão e a sanidade, ao mesmo tempo em que iguala  políticos, eleitos democraticamente, aos marginais que impõem suas leis pelo poder dos fuzis nas favelas. O medo que nos aprisiona e cala tem se transformado em terreno fértil para  extremistas que pregam o racismo, a intolerância, a xenofobia e o ódio e que tem conseguido, através do grito, mergulhar o país numa crescente onda de conservadorismo e atraso.
As redes sociais tem sido o palanque de uma minoria, não tenham dúvidas, cujos discursos e barulho ultrapassam os limites do absurdo, do respeito e do aceitável. Eles pregam, sem a menor vergonha, contra negros, homossexuais, nordestinos, índios como se parte fizessem de uma elite de sangue puro, como se não fôssemos todos, indistintamente, cidadãos de um país que carrega no DNA a linhagem de “selvagens”, escravos e degredados enviados pela coroa portuguesa, para essas terras, para pagar por seus crimes.
A internet libertou do armário essas aberrações que viveram, por décadas, em silêncio, amordaçadas pela vergonha e sem poder pregar abertamente, nem nos almoços de família aos domingos, suas idéias preconceituosas ou proferir seus discursos de ódio. As redes sociais arrancaram as mordaças e a vergonha caiu por terra porque  descobriram que não estão sozinhos e, infelizmente,  muitos como eles se revelam a cada dia destilando veneno e defendendo absurdos, como a pena de morte, em postagens mal escritas que, em nome da família, da moral e da religião, atacam os direitos individuais e a Constituição.
O diálogo e o pensamento estão reduzidos ao número de  seguidores e compartilhamentos  que conquistam na internet e as ferramentas que as redes sociais disponibilizam para medir o poder de influência de cada um no mundo digital. O TI (Técnico de Informática) a profissão do momento e, ao que parece, do futuro, é quem planeja, orienta e gerencia sua vida digital. Nesse admirável mundo novo em que liberdade é a maior forma de controle social se você não tem um TI nem um  “coach” –  gente que está se especializando em apontar caminhos e soluções para quem não consegue decidir os próprios caminhos muito menos resolver os próprios problemas –  sinto muito dizer, você é um fracassado.
Nesse circo de horrores, a privacidade foi sepultada da mesma forma que estão na moda os julgamentos e a execração pública. A tecnologia nos transformou em bárbaros onde o importante é o rótulo. E tudo é rotulável, por isso cuidado: usar a camisa da seleção  pode te transformar num “coxinha”, num “golpista” que derrubou a classe trabalhadora para colocar uma quadrilha no poder.  Vestir vermelho pode te transformar num “petralha” que pretende transformar o país numa Cuba ou Venezuela. E não se esqueça, se o seu carro é preto, melhor sair a pé, afinal você pode ser confundido com um Uber e ser vítima da fúria de taxistas.
A exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, é o mais recente caso de intolerância que deveria envergonhar a todos. A mostra foi cancelada depois que um protesto, encabeçado pelo Movimento Brasil Livre (MBL)  classificou a exposição como ofensiva, por razões que vão de “blasfêmia” no uso de símbolos católicos à difusão de “pedofilia” e “zoofilia” em alguns dos trabalhos expostos.

O  protesto  virtual levou o Santander Cultural a cancelar a exposição  que  colocou em cartaz cerca de 270 trabalhos assinados por 85 artistas, entre eles nomes renomados como Leonilson e Lygia Clark. Os facistas que hoje provocam o cancelamento de uma exposição de arte, no futuro vão dizer os livros que devemos ler, os filmes que devemos ver e os discos que devemos ouvir.

Um velho ditado, desses que a gente aprende ainda criança e nunca mais esquece, talvez por lembrarem dias que não voltam mais, talvez por carregarem verdades e lições que vamos lembrar pelo resto da vida, serve bem para ilustrar esse momento em que vivemos de divisões e decepções profundas onde as soluções parecem brotar não  do diálogo mas da imposição; não da união, mas da divisão; não da aceitação mas da intolerância, não do perdão mas do olho por olho: pimenta nos olhos dos outros é refresco…
(*) Cleber Lopes é jornalista da Rádio Litoral FM

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